terça-feira, 5 de maio de 2015

Tem muita coisa em Não Nem Nada, da Cia Empório de Teatro Sortido

Num ritmo frenético, a Cia Empório de Teatro Sortido, sugere ao público paulista uma reflexão dessa nossa vida cotidiana e rir dos pequenos detalhes e das inúmeras coisas que compõe a sociedade, dita, moderna, sem freios e medo de julgá-las. 
É assim com o espetáculo "Não Nem Nada" do estreante (e ótimo) diretor Vinicius Calderoni, que extrai do quarteto de atores jovens (Geraldo Carneiro, Mayara Constantino, Renata Gaspar e Victor Mendes) uma dinâmica desesperada, forte e interessantíssima. A interpretação dos atores não deixa que a plateia pisque os olhos, desfilando uma dezena de personagens da vida moderna, sem nenhuma mudança de figurinos, joga o foco no lado patético do cotidiano, das relações humanas, das relações amorosas, e até no culto as celebridades. 
O tema principal da peça é a superficialidade, e é com leveza e até com uma certa sensação aflitiva que a Cia consegue chegar à um excelente resultado. Destaque para a atuação rápida e minuciosa de Renata Gaspar, mas sem diminuir em nada seus contracenas.
Vale a pena ver esta comédia inteligente, rápida e jovial.

                                                                                                             Texto de Valter Vanir Coelho

domingo, 3 de maio de 2015

Déborah Evelyn merece ser vista em Hora Amarela

Em Hora Amarela, espetáculo escrito por Adam Rapp e dirigido por Monique Gardenberg, vemos um mundo caótico, dominado por alguma guerra e acompanhamos as sobreviventes que convivem com uma nova ordem, onde se esconder e tentar sobreviver é a missão do momento. Intolerância e desespero estão presentes e nos apontam um caminho cruel para o mundo no futuro, a busca pela raça perfeita.
A peça funciona como um grande climax, a diretora é de uma competência cênica inegável e o cenário de Daniela Thomas deixa o sentimento claustrofóbico escorrer para a platéia. 
Com um visual e um clima de cinema hollywoodiano o espetáculo permite que Déborah Evelyn mostre todas suas nuances, e prove o quanto é uma grande atriz, madura, forte e eloquente. Assim como Michel Bercovitch num papel pequeno não deixa de se destacar em suas curtas cenas.
Mas é no restante do elenco que estão os problemas de Hora Amarela, Isabel Wilker (que também assina a tradução) não faz frente á Deborah e sua falta de tônus no palco, em momentos cruciais, deixa claro uma certa inexperiência que a afasta da tensão que a cena exige. Darlan Cunha é sempre reticente, mesmo combinando com seu personagem, sua interpretação acaba ficando monocórdia e novamente Déborah acaba tendo que salvar e injetar animo, teatralidade e força a cena.
O espetáculo vale a pena ser visto, pela dramaturgia diferenciada, renovada e lúgubre, pela grife teatral de Monique Gardenberg, pelo caos que o mundo nos promete no futuro, mas Deborah Evelyn merece ser aplaudida de pé.

Crítica de Valter Vanir Coelho
Diretor Teatral e Teatrólogo

O Circo inventivo do Hugo Possolo encanta em Sala de Espelhos


Hugo Possolo, um dos mestres do circo-teatro da atualidade colocou toda sua inventividade à serviço de renovar e criar elementos surpreendentes e artísticos para os manjados números circenses na peça Sala de Espelhos.

O resultado é um novo olhar para números de lira, tecido acrobático, paradas clássicas, manipulação de bonecos e truques mágicos, etc.
Cavalheiro, um palhaço carismático e curioso (muito bem interpretado e criado por Felipe Oliveira) observa atraves de sua vida um desfile de tipos encantados e sonhos de uma beleza impar e vão aos poucos seduzindo o público presente.
A virtuose que sempre impressiona em artistas circenses ganha teatralidade, humor, leveza e podemos nos impressionar com a cena da lira com as artistas gêmeas Nayara e Nathália Dias, e a poesia quando elas somem e aparecem sob os olhos de Cavalheiro, o tal palhaço gentil, também na força e delicadeza das paradas clássicas de Paulo Maeda e no olhar romântico (e aéreo de) Kadu Mendes e Marina Soveral. Os figurinos de Fernando Fecchio é um show à parte.
De fato é um espetáculo para se ver e se reencantar com o circo, novamente a turma da Cia Parlapatões acertou em cheia.

Serviço:
A peça saiu de cartaz do Alfredo Mesquita onde assisti Mas está em turnê por outros locais, Fique ligado nos comentários que vamos informando onde ver este ótimo espetáculo.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Cia de Teatro Acidental propõe discutir o valão (quase o esgoto) de opiniões que domina a atual sociedade

Crítica sobre a peça teatral "O que você está realmente fazendo é esperar o acidente acontecer" da Cia de Teatro Acidental.

Numa mesa reta, feito mesa de coletiva ou congresso, alguns atores leem rubricas e cabeçalhos da publicação do texto O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues. E é essa leitura seca que aperta o gatilho para a Cia de Teatro Acidental discorrer sobre temas que povoam as obras de Nelson, mas que atormentam a sociedade até hoje (por incrível que pareça).  Racismo, aborto e pena de morte são citados pelos atores, mas é o tema da homossexualidade que gera mais controvérsias e revela a vontade do grupo: Expor a imbecilidade humana que é exposta quase todo dia nas redes sociais.
O texto é quase uma reprodução do valão de opiniões que lemos todo dia na internet (quase sempre nos coments de qualquer notícia sobre os LGBTs), e esse poço de opiniões (protegidas pelo anonimato) nos mostra o raio-x da sociedade branca, moderna, elitizada e cheia de sitos, onde todo mundo tem opinião sobre tudo, e isso é defendido como verdade absoluta, mesmo que seja repleta de inverdades, preconceito ou ignorância.
A direção de Carlos Canhameiro aposta na inteligência da plateia e não julga ou elege o que pensa ou o que devemos pensar, mas esta forma quase nula de mise-en-scéne fica no limiar do enfadonho, dependendo muito do talento do ator que tem a cena, e isso torna trechos geniais e outros bem modestos, mas a ousadia do diretor é louvável.
A Cia de Teatro Acidental é formada por atores egressos do curso de arte cênicas da Unicamp, e isso apesar de titular não os categoriza como excelentes atores, e sim como artistas contemporâneos, pensadores, analistas, loucos por uma inovação cênica, e tentam. Mas quem do elenco consegue mesmo se destacar é a jovem atriz Mariana Zink (sua cena dublando a musica Kiss Me é impagável).
O maior mérito da montagem é o contexto que ela está inserida: Um projeto de discussão chamado "Ocupação Acidental" que visañ aprofundar temas num mundo tão raso como estamos vivendo. Vale a pena pesquisar sobre esta iniciativa da Cia, vale a pena conferir e pensar sobre o espetáculo "O que Você Realmente está Fazendo é Esperar o Acidente Acontecer" e conferir que um grande acidente está acontecendo na sociedade brasileira e tem muita gente parada esperando liberar o trânsito.

                                                                                                                   Texto de Valter Vanir Coelho
                                                                                                                   Jornalista e Teatrólogo

Serviço:
Oficina Cultural Oswald de Andrade
(R. Três Rios, 363 Bom Retiro)
50 Lugares
De Quinta à Sábado, ás 20h
Gratuito

 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sem mancha e sem defeito

Crítica de "O Homem de La Mancha" musical de Miguel Falabella
 
Com um pouco de esforço e talvez uma certa espera qualquer pessoa consegue assistir gratuitamente a um dos mais belos espetáculos em cartaz na cidade de São Paulo dos últimos anos, e bota anos nisso.
"O Homem de La Mancha" musical dirigido por Miguel Falabella a partir do texto do americano Dale Wasserman chega a quase perfeição como entretenimento e arte.
Com uma história empolgante, que emociona, diverte e desperta o entusiasmo na plateia, o texto nos remete a loucura (ou seria sonho) de Miguel de Cervantes e sua maior obra, Dom Quixote.
O diretor (que sabe como ninguém conduzir uma peça ao show) teve uma brilhante ideia: aproximar o "cavaleiro da triste figura" e seus delírios ao artista plástico Artur Bispo do Rosário, brasileiríssimo, que viveu por toda a sua vida num manicômio e criou obras magnificas. Dois loucos geniais e um visagismo de tirar o fôlego, o figurino (de Claudio Tovar) é não menos impactante do que a luz (de Drika Matheus) que com cores fortes e vivas dá um aspecto ora medieval, ora obscuro, ora feliz e ensolarada.
O espetáculo tem um fôlego impressionante, quando já tudo se sabe, tudo já se estabeleceu, surgem ótimas cenas, como a chegada dos ciganos ou a apresentação da família do velho Quijana num confessionário, mas é na cena dos espelhos que cenário, atores, direção e plateia caem de amor pela obra de Cervantes, pois a cena nos esfrega na cara o quanto o que somos contrasta com o que tornamos.
O prestigio da montagem e tudo envolvido é tanto que nos surpreendemos vendo grandes estrelas do musical brasileiro fazendo papeis pequenos, como Saulo Vasconcellos e Kiara Sasso, mas eles quando aparecem, mostram realmente que não há papel pequeno para grandes atores.
Mas é no trio principal que está o ouro humano da montagem, a comicidade fácil de Jorge Maya (Sancho Pança), a voz e a dramaticidade lírica de Sara Sarres (Aldonza) e o talento irrepreensível de Cleto Baccic como protagonista, esse por sinal com justiça venceu todos os prêmios de musicais do ano de 2014, e se fossemos como nos Estados Unidos que repetem prêmios em anos da peça em cartaz, ganharia novamente esse ano. Cleto canta com a voz que definiu para seu velho, não perde em nenhum momento sua partitura corporal e arrebata os corações com uma força combinada com a fragilidade, delicadeza e doçura.
Porque ver?
"O Homem de La Mancha" vale cada segundo esperando na fila do Teatro do Sesi e se prepare para sair feliz depois de ver um grande espetáculo.

Serviço:
Até 28 de junho
Avenida Paulista, 1313 - Bela Vista - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3146 7406
Quarta a sexta, 21h; sábado, 17h e 21h; domingo, 19h.
Reservas pelo site www.sesisp.org.br/meu-sesi.
Cinquenta ingressos serão distribuídos no dia a partir das 13h (quarta a sábado) e das 11h (domingo).
Grátis