quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Deus e o Diabo na Terra do Sol e no Teatro

Um clássico do cinema brasileiro, o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, ganhou versão teatral. A montagem é uma produção da Cia Provisória, núcleo de pesquisa em teatro musical formado por alunos da Escola de Teatro da Unirio. Criada há três anos, a Cia Provisória estreou com a montagem de Calabar, o Elogio da Traição, peça de Chico Buarque e Ruy Guerra, e chega agora ao seu segundo trabalho voltado para uma temática brasileira.


Lançado em 1964 e premiado em vários festivais internacionais, Deus e o Diabo na Terra do Sol é considerado um marco do Cinema Novo e da obra de Glauber. Além de diretor, o cineasta foi responsável pelo argumento, pelos diálogos, juntamente com Paulo Gil Soares, e pelas letras da música da trilha sonora, composta por Sergio Ricardo. O filme conta a história do casal de camponeses Manuel e Rosa, que vivem a fome e a miséria do sertão. Após descobrir que foi enganado por seu patrão, o coronel Morais, Manuel o mata e foge com a mulher, juntando-se aos seguidores de um beato, o Santo Sebastião. “Uma das coisas que nos impressionam muito é a qualidade dramatúrgica da música de Sergio Ricardo, além de toda a força da brasilidade do filme, que já é bem conhecida de todos”, avalia o diretor da peça, Jefferson Almeida. Para ele, a montagem de Deus e o Diabo na Terra do Sol representou um triplo desafio para o grupo, preocupado em estudar a colocação da música na cena teatral. “O primeiro [desafio] foi a transposição, para o teatro, da obra, criada para ser um filme, com linguagem e estéticas próprias do cinema. O segundo, colocar a música, que, no filme, é trilha sonora, como parte do texto da peça, cantada pelos atores, e, por fim, vencer o desafio das possibilidades ‘brechtianas’ do argumento de Glauber”, explica.
O espetáculo não é exatamente um musical, apesar de os atores cantarem ao vivo todas as músicas compostas para o filme. Se considerarmos que um musical é aquele espetáculo em que a música está a serviço do texto, então é um musical. Mas se for dentro do que hoje se entende como sendo o gênero, que são esses grandes espetáculos apoteóticos, não. É uma peça em que a música tem uma função fundamental para que a dramaturgia aconteça. A peça enquanto exercício acadêmico, é extremamente interessante, coesa e de qualidade, mas sentimos falta de se afirmarem como teatro, deixando para trás a referencia ao filme, assumindo a autoria do roteiro e propondo novas emoções das que já vivemos no longa. Com entrada franca, a peça baseada no filme Deus e o Diabo na Terra do Sol poderá ser vista até o dia 22, de segunda a sexta-feira, às 19h.

Texto: Valter Vanir Coelho, jornalista

Bernarda por detrás dos experimentalismos universitários

Crítica do Espetáculo "Bernarda, por detrás das paredes" do Rio de Janeiro.

“Bernarda, por detrás das paredes” é o terceiro trabalho do Grupo Repertório Artes Cênicas e Cia, fruto da contínua construção duma linguagem bastante usada em cias que deixam a universidade de artes cênicas, e que na ânsia de mostrar o que aprenderam, exageram no construtivismo, na narrativa, e no enfadonho exercicio de interpretação. Lembrando de longe as técnicas do Teatro-dança, mas com o processo corporal fincado nessa técnica, o processo de criação colaborativa se apropria de espaços alternativos para aproximar a platéia, tornando visceral cada gesto, cada olhar, mas também acava revelando a inexperiência dos atores, ou a insegurança deles. Como matéria-prima para a criação do espetáculo foi escolhida a obra de García Lorca, ‘A Casa de Bernarda Alba’. As relações familiares e de gênero são a mola propulsora do jogo entre os dois atores, Nicolas Corres Lopes e Roberta Portela, que manipulam seus corpos para criar e destruir essas nove mulheres e suas angústias diante de uma castidade imposta pela matriarca, Bernarda Alba.  A confusa utilização de trechos da Poética de Aristóteles acaba esvaziando a dramaticidade pesada tão marcada na obra de Lorca, é esse recurso que a diretora-dramaturga Nieve Matos utiliza para criar o distanciamento, tornando a montagem um exercicio teatral, bastante conhecido pelos estudantes das artes cênicas, mas impondo à platéia comum um pseudo exercicio de imaginação e estereótipos. O ponto positivo dessa escolha é manter ao espetáculo a eterna reestruturação das relações ator-espectador, cena-espaço e texto-ação mantendo realmente o texto vivo e dinâmico. (Texto de Valter Vanir Coelho, diretor e professor de artes cênicas)
 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pastelão com Recheio de Talento

Crítica de "O Pastelão e a Torta" da Cia Folgazões de Vitória (ES)

A rua é muito democrática, mas impõe seus desejos e suas particularidades. O esforçado Grupo Folgazões faz um espetáculo dinâmico, divertido, charmoso e cheio de talentos, seja na interpretação do ótimo Duilio Kuster, seja no figurino e cenário de extremo bom gosto, funcionabilidade e criatividade, mas como dessas coisas que só acontecem na rua, o espetáculo acaba ficando a desejar, não chegando a emocionar, acaba ficando parado no limbo da história bem contada, bem armada e bem feita, no bojo do bom teatro. Engraçado que tudo no espetáculo é bem feito, bem alinhado e criativo. Se arriscar indicar algum caminho, ousadia minha a um grupo capixaba tão coeso e tradicional, diria que agora que já tem a técnica perfeita, podia investir na emoção, no olho no olho do espectador, na força dramatica, no escracho comico, e até ousar mais, em que? Não sei.Mas falta nessa montagem tão correta, um pouco mais de teatro de rua. O que vêm a ser isso? Que a rua lhes respondam. (Texto de Valter Vanir Coelho, Professor de Artes Cênicas)

O quê é uma Prelência?

Crítica de "A História de Prelência" livre adaptação do texto: "Sobre como essa história quase não foi contada" de Jocemar de Quadros Chagas e Direção: Giselle Flôr
Sabur um velho feiticeiro, decide dar um presente especial, mas não sabe para quem. Por isso decide dar uma missão para Preguiça sua ajudante, ela devera sair pelo mundo e encontrar uma pessoa que seja merecedora desse presente. Assim começa essa linda história teatral maquiada de teatro infantil. Digo maquiada, porque sinopse, publico alvo e publicaçãoes do Grupo 7 Phocus sempre apontam esse espetáculo como infantil, mas podemos dizer que toda a montagem de Gisele Flôr faz caminhar um espetáculo adulto, ou no máximo juvenil. Pegada forte, cores acinzentadas, música de cinema e iluminação densa, assim o grupo quase perde as crianças da platéia, mas não perde, apenas as disciplinam a ficar encantadas, emudecidas e vidradas, mas paralelamente a isso atrai os adultos e boas cabeças alí sentadas. Com uma adaptação inteligente, atuações impecáveis e uma partitura corporal excelente o Grupo carioca transcreve um texto literário para o palco, mostrando claramente que para o teatro infantil, que não imbeciliza sua platéia, fazer uma criança prestar silênciosamente atenção ao palco, começa antes, bem antes, na formação de seus atores. (Texto de Valter Vanir Coelho, Professor de Artes Cênicas).

Concerto para que Nunca Precise ir Embora

Crítica do Espetáculo "Concerto para Um Dia de Ir Embora" da Trupe Cara e Coragem, da cidade de Cabo de Santo Agostinho (PE).


 Luis Navarro (foto) é um dos melhores diretores de teatro da cena nordestina atual, com raras incursões de seus espetáculos ao eixo Rio-SP, que é uma grande pena, pois o "sudeste maravilha" precisa ver urgentemente suas cores fortes e suas dramaticidades complexas e simbolistas. Com uma dramaturgia arquitetada milimétricamente a levar as platéias a emoção, Concerto para o Dia de Ir Embora, trás uma poesia dura dos retirantes na ótica materna. As atrizes (Belly Nascimento e Evania Coppino), extremamente competentes, vão corretamente a procura de suas emoções e personagens, mas acabam coadjuvantes da trilha sonora executada ao vivo, com performances magistrais de Nice Albano e músicos, que por muitas (ou quase todas as vezes)  atingem uma perfeição entre canto e cena, música e teatro, poucas vezes vistas. Por isto, que queria muito que este diretor de teatro pernambucano viesse mais vezes ensinar paulistas e cariocas a timbrar um bom teatro por aqui.  (Texto de Valter Vanir Coelho, Professor de Artes Cênicas)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

João num Pé de Solidão

Crítica de "João e o Pé de Feijão" da Cia Voar de Brasília

Bonecos de todos os tamanhos divertem a garotada com a Cia Voar Teatro de Bonecos no clássico João e o Pé de Feijão. O espetáculo é indicado para toda a família e tem um "q" a mais para os grandinhos que forem assistir, a extrema habilidade de resolver todos as ações dramaticas sozinho do bonequeiro e diretor Marco Augusto (ex-bonequeiro do grupo Bagagem). Curioso que todos os personagens da história de João ganham vida na forma de bonecos, e ainda mais curioso é ver Marco dando conta de tantos elementos em cena, além das movimentações,bonecos coadjuvantes e cenários mutantes, tudo ao mesmo tempo, sem nenhuma barriga e com maquinagens se mantendo escondidas do público, tornando o jogo do "quem opera" um trunfo para o espetáculo. A história fala da curiosidade, fantasia e astúcia de um menino que vence o gigante, acaba com a fome e a aridez do lugar onde mora e consegue mudar o destino da sua família. O conto popular é rico em simbolismo e elementos mágicos, como a semente que brota até o céu, a galinha dos ovos de ouro, o terrível gigante e a harpa encantada. Excelente espetáculo de teatro, e um dos melhores espetáculos de bonecos que temos no Brasil. (Texto de Valter Vanir Coelho, Professor de Artes Cênicas)

Aurora do riso!

Crítica sobre A Companhia de teatro Rataplan com a comédia  ACORDA AURORA,  www.rataplan.art.br

Dois atores, interpretando dois atores, que também são dois palhaços, e que por sua vez dão vida aos clássicos personagens de um dos contos de fadas mais lidos e vistos de todos os tempos A Bela Adormecida, assim é o espetáculo que começa. Teatro narrativo bem feito é realmente uma ode ao prazer, assim suspiramos ao final do espetáculo Acorda Aurora, da Cia paraibana Rataplan. Acrescido a isso figurinos ricos em detalhes, um humor dragqueenesco no melhor sentido da expressão e ainda dois atores afiadissimos, atores esses captaneados por um fino humor onde o escracho dialoga com as piadas elitizadas sem pontes e nem virgulas, mostrando assim que o riso transpõe qualquer barreira de pudor ou estilo numa comédia irresponsável e inteligente, que deixa a platéia frouxa de rir. Os improvisos tão repetidos nessa longa carreira de Netto Ribeiro e Isaú Firmino parecem falas escritas e bem dirigidas, ou vice-versa, as falas desse otimo texto foram tão bem repetidas que parecem improvisos, mais dois grandes méridos destes dois grandes atores. (Texto de Valter Vanir Coelho, Professor de Artes Cênicas)

Brás Cubas de alma mineira

Crítica de "Por caminhos de Brás Cubas" da Cia Intervalo de Belo Horizonte

 
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A genialidade de Machado de Assis, aliada ao talento de Ítalo Mudado, uma das referências do teatro mineiro, só podia dar coisa boa, como a peça Por caminhos de Brás Cubas, inspirada em Memórias póstumas de Brás Cubas, obra maior do bruxo do Cosme Velho. Montado originalmente no ano passado, no ensejo das comemorações do centenário da morte do autor, o espetáculo fez parte da programação do 40º Festival de Inverno da UFMG, em Diamantina, e em seguida foi apresentado no Congresso Internacional Centenário de Dois Imortais, Machado e Guimarães Rosa, realizado na Faculdade de Letras da UFMG.  “Sempre fui fascinado com a obra de Machado de Assis, especialmente por Memórias póstumas de Brás Cubas, que já li diversas vezes, sempre com o mesmo encantamento. Mas, como seria impossível levá-lo por inteiro ao palco, resolvi aproveitar o que, na minha concepção, seria o essencial do romance, seu lado filosófico. Sendo assim, centrei o espetáculo nos capítulos O delírio, Um encontro e O maniqueísmo, além do final do livro, com as últimas palavras de Brás Cubas”, conta Ítalo Mudado. Mineiro de Belo Horizonte, ligado ao teatro desde a adolescência, quando estudava no Colégio Batista, Mudado diz ainda que, como poderia se supor a princípio, a peça não se tornou dissertativa. “Pelo contrário. O pensamento do escritor adquire dinamismo excepcional, graças à ótima interpretação dos atores”, afirma. Com trilha sonora de Marcel Luiz e figurino de Alexandre Colla e Grupo Intervalo, integram o elenco os atores Ana Nery, Daniel Dolabella, Edson Moreira, Marinho Oliveira e Roberto Polido. A iluminação ficou por conta de Marco Túlio Zerlotini. (Texto de Carlos Herculano Lopes - EM Cultura )

Fólclore de Muitos Amores

Crítica do Espetáculo de Rua "Folclore do Amor" da Cia As Lucianas

Um espetáculo dirigido, escrito e atuado por Luciana Ezarani. Talvéz aí,na frase anterior apontamos o grande problema do espetáculo. A direção, texto e a atuação de Ezarani tão evidentes, acaba dando um cansaço a mais na montagem, é como se o espectador assistisse um excesso do ponto de vista desta mesma artista. Com boas atuações, inclusive da diretora, a montagem excede nas tais histórias de amor, mostrando cênicamente tantas que acaba o espectador tendo resistências em vivênciar as últimas delas. A música pontua bem o espetáculo, o mote da história carrega bem seus atores, a maquiagem é carnavalesca demais para a sensiebilidade da história (o amor). A Cia Aslucianas tem força, vóz e garra na rua, defendendo o espetáculo até seu ultimo lampejo, e esse é o maior mérido de seu espetáculo. (Crítica de Valter Vanir Coelho, professor de artes cênicas)