quinta-feira, 23 de abril de 2015

Cia de Teatro Acidental propõe discutir o valão (quase o esgoto) de opiniões que domina a atual sociedade

Crítica sobre a peça teatral "O que você está realmente fazendo é esperar o acidente acontecer" da Cia de Teatro Acidental.

Numa mesa reta, feito mesa de coletiva ou congresso, alguns atores leem rubricas e cabeçalhos da publicação do texto O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues. E é essa leitura seca que aperta o gatilho para a Cia de Teatro Acidental discorrer sobre temas que povoam as obras de Nelson, mas que atormentam a sociedade até hoje (por incrível que pareça).  Racismo, aborto e pena de morte são citados pelos atores, mas é o tema da homossexualidade que gera mais controvérsias e revela a vontade do grupo: Expor a imbecilidade humana que é exposta quase todo dia nas redes sociais.
O texto é quase uma reprodução do valão de opiniões que lemos todo dia na internet (quase sempre nos coments de qualquer notícia sobre os LGBTs), e esse poço de opiniões (protegidas pelo anonimato) nos mostra o raio-x da sociedade branca, moderna, elitizada e cheia de sitos, onde todo mundo tem opinião sobre tudo, e isso é defendido como verdade absoluta, mesmo que seja repleta de inverdades, preconceito ou ignorância.
A direção de Carlos Canhameiro aposta na inteligência da plateia e não julga ou elege o que pensa ou o que devemos pensar, mas esta forma quase nula de mise-en-scéne fica no limiar do enfadonho, dependendo muito do talento do ator que tem a cena, e isso torna trechos geniais e outros bem modestos, mas a ousadia do diretor é louvável.
A Cia de Teatro Acidental é formada por atores egressos do curso de arte cênicas da Unicamp, e isso apesar de titular não os categoriza como excelentes atores, e sim como artistas contemporâneos, pensadores, analistas, loucos por uma inovação cênica, e tentam. Mas quem do elenco consegue mesmo se destacar é a jovem atriz Mariana Zink (sua cena dublando a musica Kiss Me é impagável).
O maior mérito da montagem é o contexto que ela está inserida: Um projeto de discussão chamado "Ocupação Acidental" que visañ aprofundar temas num mundo tão raso como estamos vivendo. Vale a pena pesquisar sobre esta iniciativa da Cia, vale a pena conferir e pensar sobre o espetáculo "O que Você Realmente está Fazendo é Esperar o Acidente Acontecer" e conferir que um grande acidente está acontecendo na sociedade brasileira e tem muita gente parada esperando liberar o trânsito.

                                                                                                                   Texto de Valter Vanir Coelho
                                                                                                                   Jornalista e Teatrólogo

Serviço:
Oficina Cultural Oswald de Andrade
(R. Três Rios, 363 Bom Retiro)
50 Lugares
De Quinta à Sábado, ás 20h
Gratuito

 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sem mancha e sem defeito

Crítica de "O Homem de La Mancha" musical de Miguel Falabella
 
Com um pouco de esforço e talvez uma certa espera qualquer pessoa consegue assistir gratuitamente a um dos mais belos espetáculos em cartaz na cidade de São Paulo dos últimos anos, e bota anos nisso.
"O Homem de La Mancha" musical dirigido por Miguel Falabella a partir do texto do americano Dale Wasserman chega a quase perfeição como entretenimento e arte.
Com uma história empolgante, que emociona, diverte e desperta o entusiasmo na plateia, o texto nos remete a loucura (ou seria sonho) de Miguel de Cervantes e sua maior obra, Dom Quixote.
O diretor (que sabe como ninguém conduzir uma peça ao show) teve uma brilhante ideia: aproximar o "cavaleiro da triste figura" e seus delírios ao artista plástico Artur Bispo do Rosário, brasileiríssimo, que viveu por toda a sua vida num manicômio e criou obras magnificas. Dois loucos geniais e um visagismo de tirar o fôlego, o figurino (de Claudio Tovar) é não menos impactante do que a luz (de Drika Matheus) que com cores fortes e vivas dá um aspecto ora medieval, ora obscuro, ora feliz e ensolarada.
O espetáculo tem um fôlego impressionante, quando já tudo se sabe, tudo já se estabeleceu, surgem ótimas cenas, como a chegada dos ciganos ou a apresentação da família do velho Quijana num confessionário, mas é na cena dos espelhos que cenário, atores, direção e plateia caem de amor pela obra de Cervantes, pois a cena nos esfrega na cara o quanto o que somos contrasta com o que tornamos.
O prestigio da montagem e tudo envolvido é tanto que nos surpreendemos vendo grandes estrelas do musical brasileiro fazendo papeis pequenos, como Saulo Vasconcellos e Kiara Sasso, mas eles quando aparecem, mostram realmente que não há papel pequeno para grandes atores.
Mas é no trio principal que está o ouro humano da montagem, a comicidade fácil de Jorge Maya (Sancho Pança), a voz e a dramaticidade lírica de Sara Sarres (Aldonza) e o talento irrepreensível de Cleto Baccic como protagonista, esse por sinal com justiça venceu todos os prêmios de musicais do ano de 2014, e se fossemos como nos Estados Unidos que repetem prêmios em anos da peça em cartaz, ganharia novamente esse ano. Cleto canta com a voz que definiu para seu velho, não perde em nenhum momento sua partitura corporal e arrebata os corações com uma força combinada com a fragilidade, delicadeza e doçura.
Porque ver?
"O Homem de La Mancha" vale cada segundo esperando na fila do Teatro do Sesi e se prepare para sair feliz depois de ver um grande espetáculo.

Serviço:
Até 28 de junho
Avenida Paulista, 1313 - Bela Vista - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3146 7406
Quarta a sexta, 21h; sábado, 17h e 21h; domingo, 19h.
Reservas pelo site www.sesisp.org.br/meu-sesi.
Cinquenta ingressos serão distribuídos no dia a partir das 13h (quarta a sábado) e das 11h (domingo).
Grátis